ATÉ SEMPRE, QUERIDA HELÔ!


A agora saudosa Companheira de luta e de Vida, aguerrida e guerreira como poucas em nossa terra, foi batizada com o nome Heloísa Helena da Costa Urt, nunca tendo negado sua ascendência palestina de militância inesgotável. Como poucas de sua geração ousou transgredir as normas impostas pela hipocrisia de plantão, no auge do período de trevas que infelicitou toda a América Latina, marcando sua existência por atitudes contundentes nem sempre simpáticas, mas autênticas e corajosas.

Quem, entre os que tiveram o privilégio de viver naqueles anos, não se lembra da linda e aguerrida professora que estimulava seus alunos com os mais puros questionamentos? Dá para esquecer a singular dirigente estudantil, nos tempos do "Diretório Acadêmico Dom Aquino Corrêa" (DADAC), que desafiava docentes e autoridades para abrir os horizontes dos acanhados colegas de universidade e fazer valer o ambiente universitário, com filmes, recitais, saraus e toda sorte de eventos culturais (com Tetê e o Lírio Selvagem, Papete, Sivuca, Plínio Marcos, Ziraldo, Jaguar, Newton Carlos, Carlos Castello Branco, Antônio Callado e Fernando Barros), tão temidos pelos gendarmes de plantão nos obscuros tempos do arbítrio e da tortura?

Pois ela, em tenra idade, decidiu abandonar o magistério afrontando os engomadinhos da época com iniciativas extraordinárias, levando a cultura à praça, seja como artesanato alternativo ou como sua saudosa galeria de arte "Corumbarte" na mais badalada avenida de Corumbá, defronte ao Rio Paraguai, logo transformada em centro de referência de informações turísticas, culturais e científicas. Não por acaso, nessa época, reuniu amigas ousadas como ela (entre as quais Marlene Mourão, a querida Peninha) para conhecer a Europa e colocar por terra o discurso dos colonizados de que o Velho Continente é um pedaço do paraíso e que seus habitantes são seres dotados de superioridade nata.

Foi organizadora da primeira passeata contra a poluição causada por uma fábrica de cimento localizada no perímetro central da cidade, no início da década de 1980. Era dela o bordão: “Ação, ação, ação! Abaixo a poluição!”

Essa mesma guerreira de causas justas e nobres, num tempo em que ser de esquerda era uma heresia, teve a coragem de ser uma das fundadoras, ao lado de Dona Eva Granha de Carvalho, José de Oliveira, José Dílson de Carvalho e Marlene Terezinha Mourão, entre outro(a)s, do Partido dos Trabalhadores em Ladário, mais tarde ampliando a sua militância a Corumbá, como uma mãezona de todo(a)s o(a)s despossuído(a)s, muito(a)s do(a)s quais jamais demonstraram gratidão. Embora chegasse a dirigente partidária, foi apenas duas vezes candidata a vereadora (em 1982, em Ladário, e em 2008, em Corumbá), quando tinha tudo para ter sido a “Dilma Roussef pantaneira” ou a “Dorcelina Follador ladarense”. Desculpem-me os corumbaenses/ladarenses eleitore(a)s: seu jeito sincero e por isso polêmico talvez tenha impedido que a acuidade política do eleitorado não tivesse aquilatado tamanha grandeza de ser humano, que teria feito a diferença no exercício da política no primeiro escalão, fosse no Executivo ou no Legislativo.

Ao lado de Peninha e de outro(a)s amigo(a)s, participou ativamente da realização da única Mostra da Cultura Árabe, em 1987 (durante três meses na Biblioteca do ILA); da fundação do Comitê 29 de Novembro de Solidariedade ao Povo Palestino, em 1987; da Sociedade dos Amigos da Cultura (realizadora da primeira manifestação pública em prol do ILA), em 1991; do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida (conhecida também como "Campanha contra a Fome"), em 1993; do Comitê de Defesa da Urucum, em 1994; do Pacto Pela Cidadania (Movimento Viva Corumbá), em 1994; do Comitê Pró-Cultura de Corumbá (CPCC), em 1994, que lembrou com pioneirismo o centenário da morte de Antônio Maria Coelho; do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD), em 1995; do Movimento pela Implantação do Programa BID-Monumenta em Corumbá, em 1999; do Comitê de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes em Corumbá, em 1999; do Comitê de Monitoramento do Programa Pantanal, entre 1999 e 2002; do Comitê de Defesa do Rio Paraguai, em 2000 (tendo ido em rota de colisão com os principais dirigentes partidários da época); da Organização de Cidadania, Cultura e Ambiente (OCCA), em 2000/2001; da Aliança Rio Paraguai, em 2002; da Rede Pantanal de ONGs e Movimentos Sociais, em 2002; do Comitê de Monitoramento da Arborização de Corumbá, em 2003; do Comitê Corumbá Pela Paz, em 2003; da Associação dos Poetas e Escritores de Corumbá (APEC), empreendida pelo poeta e Menestrel da Cidadania Balbino Gonçalves de Oliveira em companhia do hoje saudoso poeta e biomédico Valter Wolmar Rien, em 2003; e do Centro de Referência em Artesanato para Pessoas com Deficiências (CREARTE), idealizado pela incansável Professora Iza, em 2004.

Com seu jeito peculiar de ser e de agir, desenvolveu com altivez -- e muita polêmica, é verdade -- os cargos que conquistou com mérito e dignidade. Foi a primeira presidente do Conselho Gestor de Saúde do Hospital de Caridade. O mais recente deles foi o de gestora das políticas culturais do município de Corumbá, cuja dedicação exemplar a fez colocar em segundo plano, como de hábito, sua saúde e seus compromissos pessoais.

Em meu encontro derradeiro com ela, na Praça Generoso Ponce, em Corumbá, no dia da abertura dos Festivais de Dança e de Gastronomia do Pantanal, ela estava com o incontido otimismo que sempre a caracterizou. Fez questão de chamar-me a atenção para os cuidados com minha saúdo, com a contundência de mãe carinhosa, e me confidenciou que o próximo passo de suas atividades será a realização mensal de um dia destinado à gastronomia pantaneira, como forma de disseminar a culinária regional e valorizar os sabores e odores da terra que acolheu seus ancestrais e que tão bem soube retribuir em toda a sua existência.

Ainda que seja frase-feita, sem dúvida, a querida Helô vai fazer falta. Muita falta. Sobretudo para este povo carente de militantes dignos e autênticos para o qual em sua curta mas intensa existência soube emprestar sua voz e lhe dar vez com seu insubstituível estilo benuíno-pantaneiro.

Faleceu subitamente como gestora das políticas de Cultura e Turismo, com a mesma abnegação e generosidade com que se dedicou em sua vida de militante de beduína pantaneira: tudo para todos, nada para mim nem para os meus.

Ninguém melhor que a poeta Peninha exprimiu eloquentemente nos idos da década de 1980: Helô não cabe numa poesia, ela é o poema todo. Privilégio para nós, que pudemos conviver com pessoa de tamanha magnitude.

Toda homenagem será pequena diante de sua magnitude única como o Pantanal que como ninguém soube defender, embora muito de seus líderes divergissem frontalmente dela. Como gostaríamos ver estampado seu nome na rua defronte à Casa de Cultura (curiosamente chamada de Praça da República) -- é uma rua de apenas uma quadra, mas ficaria bem representativa se passasse a ser chamada de Rua Professora Heloísa Urt. É o mínimo que deve ser feito em reconhecimento à dedicação, ao amor e à luta empreendida por alguém que com tamanha abnegação priorizou o bem público.

Até sempre, querida Helô! O pranto é pequeno demais diante do que precisamos fazer em sua desoladora ausência.

Schabib Hany

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

UMA PERDA ENORME

Sim... uma perda enorme... estou muito triste...
                                                                           Débora Calheiros
"Ser livre é ser bem informado e a divulgação científica é um instrumento de construção da democracia e da cidadania"
Celso Lafer - Presidente da FAPESP

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