Quem já teve o privilégio de ver um cardume de dourados subindo o rio Paraguai atrás de lambaris e outros peixinhos jamais esquece este espetáculo. De uma hora para outra o rio parece ferver, com grandes peixes dando piruetas fora da água, brilhando na sua cor amarelada pelos efeitos dos raios solares. Caso você passe perto de barco, corre o risco (risco mesmo!) de colher belos exemplares, que caem sem nenhum esforço aos seus pés. Já tive esse prazer e jamais esqueci o belo e inusitado espetáculo da natureza. Isso, porém, já faz muito tempo. O tempo passou e a sanha de pescadores/predadores que infestaram o Pantanal por anos a fio contribuiu para o estabelecimento de um processo perigoso de dizimação da fauna pantaneira. E o dourado, o rei do rio, não ficou imune a esse processo destruidor, o mesmo ocorrendo com outras espécies de peixes e animais. Para fazer frente a esta situação, penso, até de forma radical, na necessidade do estabelecimento de um período de suspensão da pesca na região pantaneira. É claro que as questões sociais daí decorrentes precisariam ser equacionadas pelos organismos estaduais e municipais, como por exemplo, buscar uma saída decente à sobrevivência dos pescadores profissionais. O programa de ajuda aos pescadores no período da piracema pode ser um começo para evoluir para o seu aproveitamento em projetos de piscicultura. Até que enfim, vejo uma luz com a iniciativa da prefeitura municipal de Corumbá com o envio à câmara municipal de um projeto de lei decretando a proibição por cinco anos da pesca do dourado no âmbito do município, permitindo apenas a modalidade de pesque-solte e a pesca de subsistência. Certamente será aprovado pelos edis corumbaenses, já que a medida tem a aprovação da sociedade local. Infelizmente, continua a pesca predatória travestida de legalidade, como o uso incontrolado da modalidade de anzol de galho. É esperar para ver. No entanto, o sol que brilha sobre os belos peixes dourados está escondido nos céus de Corumbá e os dias parecem mais escuros e tristes. A cidade branca perdeu na quarta-feira (23.11) uma guerreira que sonhou e batalhou por uma Corumbá melhor. Rendo minhas homenagens à amiga Heloisa Urt (nossa querida Helô) que prematuramente, aos 61 anos, teve a sua luz radiante apagada por um infarto fulminante. Lembro da garota, uma brilhante aluna de letras do Centro Universitário de Corumbá, com seu sorriso largo e voz estridente, irreverente e crítica, oferecendo aos seus professores um pacu assado e recheado na sua também querida terra natal, Ladário. Helô manejava as panelas com a mesma competência com que lutava por justiça social e por solidariedade, contra a intolerância e a discriminação de crenças, raças e culturas. Helô foi uma mulher singular, respirava política por todos os seus poros, radical em suas posições, a ponto de deixar o exercício do magistério (e a segurança de funcionária pública) e, junto de sua inseparável escudeira, Marlene Mourão, a artista plástica Peninha, abraçar um projeto de vida em defesa das suas convicções e das manifestações culturais regionais. Nem sempre compreendida, enfrentou com coragem e galhardia os reveses da vida, e nos momentos mais difíceis nunca perdeu o seu bom humor, irreverência e garra na luta pelos seus princípios. Esta é a Helô que conheci. Mulher generosa, transformou a sua casa junto com a Peninha em embaixada dos desprotegidos, viajantes, formadores e amantes da cultura e da ciência. Sabia entender as dificuldades do ser humano e, na sua casa, mesmo nos momentos difíceis que não foram poucos, deu abrigo e pão a quem a procurasse. Foi uma corajosa fundadora do PT, na década de 1980, numa cidade dominada por políticos conservadores e avessos às novidades. Entretanto, Helô representou muito bem o espírito e a antiga tradição da cidade branca que em tempos passados foi a vanguarda do estado, tanto na política como na cultura. Apenas foi reconhecida na sua luta quando o seu partido político assumiu o governo estadual, e seu trabalho foi finalmente prestigiado, sendo indicada gestora da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque e depois nomeada, com muito merecimento, presidente da Fundação de Cultura e Turismo do Pantanal, entidade cultural de Corumbá. Pode então colocar em prática as suas idéias e marcar de forma indelével a sua presença na história cultural de Corumbá e Ladário. Com inteligência e talento foi pioneira na recuperação dos “velhos” carnavais, reintroduzindo a descida dos corsos, blocos de pastorinhas e frevos. Promoveu o bloco carnavalesco Sandálias do Frei Mariano, Noite da Seresta, Projeto Pôr do Som, entre outras atividades culturais. Promoveu também o cadastramento de todas as famílias que praticavam os festejos de São João, ampliando essas atividades e preservando-as como a principal manifestação popular da região. Com certeza deixará uma lacuna na vida corumbaense difícil de ser reocupada. É uma grande perda. O por do sol por detrás da ponte da captação de água, no meio do rio Paraguai, terá um raio de luz a menos...Que São João a receba e acalente como o seu cordeirinho... Resta-me o consolo de que o brilho de ouro e prata dos peixes pantaneiros permanecerá por muito mais tempo, iluminando as nossas saudades. Valmir Batista Corrêa |
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